Depois desse aquecimento, vamos a entrevista:
1 - O que é uma encomenda pragmática ou tradicional?
JCA: Uma encomenda rápida a ser realizada sem maiores dificuldades.
AB: As pessoas normalmente já conhecem meu trabalho. Alguns são clientes habituais, outros olham os carros já pintados e perguntam pelo autor, têm aficionados que chegam pelo website... e isso sempre facilita para que eles não falem muita coisa. O corriqueiro é que identifiquem o destino do carro: corridas de rally, GT, outros... só para ter uma coisinha diferente na vitrina, vitrine em francês; etc. Aí eu vou indagando as cores que eles gostam e elaboro um perfil do cliente.
2 - Quando iniciou com a pintura de automodelos de fenda? Lembra do primeiro e já foi profissionalmente?
JCA: Fui plastimodelista por um bom tempo, sempre montei e pintei aviões, minha paixão, e também pintei muitas carrocerias em Lexan, bolhas, até pintar os meus próprios réplicas. Errei muito até chegar a uma boa qualidade em pintura. Hoje tenho muitas encomendas.
AB: O primeiro foi um Toyota Supra Ninco, esse foi meu primeiro automodelo quando adentrei no Slot. Ainda não tinha aerógrafo e pintei-o com aerossol na cor vermelha metalizada. Ficou bonito, mas agora com o aerógrafo a vida e outra! Poucos dias depois de ter pintado aquele carro um aficionado gostou e pediu que pintasse um Supra para ele, para participar da Copa Ninco e do campeonato de GT. Ele foi meu primeiro cliente.
3 - Existe algum tipo de ritual para que a inspiração flua?
JCA: Ritual não, mas preciso estar com a cabeça tranqüila e estar em harmonia, ou seja, mente e corpo voltados para essa finalidade!
AB: Só posso responder com a verdade: inspiração é uma dama misteriosa que aparece ou some quando ela tem vontade. Tenho que estar atento. Tem coisas e momentos que parecem ajudar para que ela venha, quando estou tomando um banho quente, escutando música ou depois de caminhar sozinho na praça.
4 - Que tipo de inspiração acredita que seja mais comum? Leitura, cinema, música, designer e artes, televisão?
JCA: Minha inspirarão surge sempre quando estou na estrada viajando, ouvindo música e com minha mente voltada a pintura que vou realizar, fico imaginando o carro pronto é ai que vem as idéias de como realizar uma boa pintura.
AB: Acho que a música ajuda muito e o porquê é que estimula o estado de ânimo. Também é muito importante esquecer da pintura durante uns dias, isso é, como esvaziar o quadro mental e pronto para enchê-lo novamente.
5 - Se houver uma proximidade maior com o proprietário ou com quem encomendou a pintura, mais fácil de perceber o que se almeja? O perfil do cliente influência de alguma maneira?
JCA: Você tem que respeitar sempre a opinião e o gosto do cliente, nem sempre o que você pinta e do gosto do cliente uns são conservadores outros extravagantes.
AB: Com certeza. Eu tento sempre tirar toda a informação da pessoa. Olho seus automodelos para saber que estilos ele gosta, sua roupa, relógio, sapatos... tudo é relevante e descreve a personalidade.
6 - O que é mais comum, o contratante estipular cores ou fazer referências a forma de sua distribuição ou apenas se preocupar com os decalques ou patrocinadores?
JCA: Normalmente a pessoa solicita as cores e o desenho ele credita na minha inspiração, inclusive os decalques.
AB: Meus clientes têm uma louca tendência a acreditar que eu vou fazer algo bonito sem eles falar quase nada... jeje(Sorri enquanto responde). Alguns sugerem cores ou pedem um número especial para eles, mas não falam muita coisa. Eu não escondo que gosto mais de fazer o trabalho assim, com liberdade. Sou muito agradecido a eles por conceder isso.
7 - Qual o melhor trabalho a ser executado, quando não se escolhe sequer o automodelo ou a dificuldade maior é com a imposição da seleção das cores?
JCA: Sempre com imposição das cores. Como te falei nem sempre o que você acha bonito é do gosto do cliente ou o inverso. Mas quando você que escolhe as cores, o desenho e deixa a disposição das pessoas, depois recebe elogios ai sim! Essa é a melhor realização.
AB: A imposição das cores não é problema se eu gosto delas... se eu não gosto não aceito, peço reconsiderar e proponho idéias. Não escolher o automodelo e uma coisa boa porque em muitas ocasiões representa um desafio. Desafio é saúde para a criatividade.
8 - Tem alguém em quem se espelhe?
JCA: Sempre respeitei meus colegas de pintura, difícil espelhar em alguém, pois cada um tem seu talento, mas admiro muito os trabalhos do Nelsinho foi a pessoa que me deu muitas dicas sobre pinturas de réplicas.
AB: Não, nunca gostei de imitar nem olhar outras pessoas, procuro estimular minha própria criatividade.
9 - Em tua galeria de realizações, quais tuas principais obras?
JCA: Uma Mclaren da Gulf. Ela esta aqui em Piracicaba, eu pintei a pedido do Karan, em 2007 que por sinal a Slot It lançou no mercado recentemente. Foi o meu melhor trabalho até hoje, ficou bonita que nem o dono deixou adesivar e guardou a sete chaves.
AB: Sou um critico exaustivo de meu trabalho, acredito que assim vou aperfeiçoá-lo. Cada obra tem detalhes e coisas que os fazem singulares. Para esta pergunta vou escolher dois automodelos que são muito especiais para mim porque marcam um momento de grande criatividade e realização. O Toyota GT1 Art Attack! e Toyota GT1 Delirio Nipón. Eles combinam a expressão artística com as técnicas de modelismo.
O Toyota GT1 Art Attack! foi feito em um momento de doida rebelião contra as decorações tradicionais. Peguei um pincel e as tintas acrílicas com as que pinto em lenço e improvisei sem temores. Esse carro foi sucesso absoluto e fiquei feliz porque as pessoas aceitaram uma decoração ousada.
A historia do Toyota GT1 Delirio Nipón é semelhante, foi concebida como uma obra minimalista ainda que muito complexa. Todos os detalhes foram feitos com pincel.
Ambos carros tem pintura branca Humbrol, o desenho com as cores e em cima da pintura a pincel receberam uma capa de laca bi componente PPG
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http://www.modelismocreativo.com/contents-decoraciones/toyota-gt1-nipon.html10 - Qual foi seu trabalho mais engraçado? E o que mais curtiu fazer? Dados pitorescos?JCA: Foi um Camaro com a pintura toda queimada, todo cheio de ferrugem, parecia carro de desmanche. Quando coloquei na pista todos riram muito e foi foto pra todo lado, mas o mais engraçado foi o piloto com o cigarro na boca. Pena eu não ter essa foto.
AB: Sempre tento curtir quando trabalho nos automodelos, mas ocorre que quando é trabalho para um cliente a responsabilidade de fazer tudo perfeito me faz sentir um pouco tenso também.
Acho que o automodelo mais engraçado foi o Porsche 956 ICEMAN. Ele foi feito para meu grande amigo Carlos, popular "Iceman". Ele me deu o carro e falou: "faz alguma coisa especial de mais..." Fiquei nervoso e em dúvida duas semanas até que a idéia de pintar os gelos chegou a mim. Quando o povo do slot conheceu o seu Porsche aplaudiu a idéia
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11 - O que é comum, contrariar as exigências de quem encomendou e ele ficar surpreso e satisfeito ou acatar parcialmente ou totalmente seu desejo?JCA: Ficar surpreso. Como mencionei, nós conseguimos ver o carro pronto o cliente às vezes não. Quando pronto fica espantado, não quer usar pra correr , prefere guardar.
AB: Não vou mentir... acatar totalmente não existe no meu dicionário (sorriu enquanto respondia). Os clientes já sabem disso e sempre esperam alguma coisa imprevista. Tenho a sorte de agradá-los. Ainda assim, se alguém tem um pedido especial tento respeitar.
12 - Qual o trabalho que achou que não ficaria bom e o resultado foi significativo? Diria que foi acidental ou experimental?JCA: Foi uma Mclaren da Slot It que pintei para o Brasileiro em Charqueada. Pintei em meia hora para meu filho, não tinha tempo. Errei nas cores e acabou ficando lindamente diferente. É referência e até hoje ela é admirada.
AB: Um experimento bonito foi um Porsche 911 GT1 pintado totalmente a pincel. O desenho é a bandeira da Alemanha que ocupa toda a carroceria. A intenção foi que a bandeira não fique real senão como uma pintura sobre lenço, com estilo pictórico, relativo a pintura ou imagem - o que se presta a ser representado visualmente. Para dar um acabamento excepcional esse carro tem duas capas de laca. Num começo eu acreditava que a idéia era legal, mas tinha medo de não fazer ele bem... a inspiração ajudou!

http://www.modelismocreativo.com/contents-decoraciones/porsche-deutsch.html13 - O que é um trabalho perfeito?
JCA: Primeiro satisfaz o cliente com a combinação das cores e verniz. Algo que o cliente diga “Esse vai para a coleção!!”
AB: Perfeição é um conceito que muda em cada situação... vou tentar dar uma resposta concreta. Um trabalho perfeito é aquele que cumpre com seu objetivo, que alcança o status de "perfeição" do destinatário, seja um cliente ou qualquer pessoa. A satisfação do destinatário é fundamental. Então, se faço uma decoração para mim vou ter minhas metas, se é para um cliente vai ser a somatória da sua satisfação como destinatário e minha satisfação como artista que executa a obra.
A conformidade do cliente reflete nas cores, o estilo, decalques e prolixidade. Minha satisfação é entender o que o cliente gosta, executar isso com prolixidade e sempre renovar minha obra, acrescentando também a qualidade dos processos e técnicas
.14 – Os clientes habituais deixam tudo por tua conta? Tem algum que consegues agradar apenas contrariando suas indicações?
JCA: Deixam ao meu critério e minha escolha. Eu já sei até as cores prediletas de cada cliente inclusive o desenho dos carros.
AB: Quase sempre eles me consentem as decisões. Quando pedem as cores eu sempre avalio para aceitar, mas o esquema é minha responsabilidade.
15 – O que é mais determinante, seleção das cores ou do automodelo de fenda?
JCA: Automodelo. Se não oferece um desenho que ajude no formato das pinturas, fica difícil você criar algo que combine, tanto no desenho como na pintura.
AB: O mais importante é a correta comunhão das cores para o automodelo de fenda num esquema adequado. Todo automodelo pode ficar bonito se é decorado com essa premissa.
16 – Em se tratando da carroceria, qual parte é mais fácil de executar, Teto, traseira, lateral, capô? E a mais difícil?
JCA: Mais fácil as laterais, mais complicado seria o capô e teto, pois tem que ficar liso, sem defeito. A parte de cima é que se observa mais.
AB: Não encontro diferenças, o que é trabalhoso é pintar superfícies a 90 graus, porque tenho que cuidar que o fluxo de ar e pintura seja adequado para evitar respingos, que escorra e procurar uma correta distribuição da pintura.
17 – Qual a cor que não escolheria de jeito nenhum para executar teu trabalho? Ela sozinha?
JCA: Todas as cores, com certeza, se bem trabalhadas ficam bonitas. Claro que tem que combinar.
AB: A cor marrom não tem lugar no meu mundo decorativo de hobbies.
18– E aquela que sempre que possível está presente?
JCA: As que não podem faltar, branca e a preta.
AB: Branca. Pode ser uma cor principal, secundaria, está presente em detalhes, linhas para dividir outras cores... e acontece que é clássico nos autos de competição.
19 – O que seria tua marca registrada no que tange a configuração das distribuição das cores ou desenho? E as cores?
JCA: Meus traçados são simples, em formas triangulares e divisões das cores em tom sobre tom.
AB: Eu faço um grande esforço por me renovar. As idéias e a criatividade são fundamentais. Isso é o que faz aos clientes voltarem sempre, eles sabem que sempre vou procurar novos estilos, decalques de auspícios novos, pinturas de alta qualidade, etc.
Posso referir a uma marca registrada, como coisa que é de minha autoria e não vai a ver em outro decorador, em meus filetes. Faço-os com pincel ou com aerógrafo. Com o segundo método corto máscaras que aplico na carroceria. Dois exemplos são o Maserati MC12 Ibiza e o Toyota Tom’s Test Car.